De São Paulo a Mairinque pelos trilhos da Sorocabana.
Já que não tem mais o trem de subúrbio para a cidade de Mairinque partindo da Estação Julio Prestes em São Paulo, decidi conhecer o percurso que era feito inicialmente pela EFS (Estrada de Ferro Sorocabana) de trem até aonde a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) chegasse, e estava inspirado para seguir a pé pela ferrovia a partir deste ponto, caminhando sob a linha férrea até chegar na cidade de Mairinque, e assim conhecer o que sobrou de uma linha que foi tão importante.
Eram 7 horas e 10 minutos da manhã quando me encontrei com o Marquinhos na Estação Julio Prestes, no centro de São Paulo, o prédio aonde funcionavam os escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, e hoje abriga a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e a famosa Sala São Paulo. O Marcos (Daniel) é natural de Cosmópolis e ainda não conhecia esta parte do centro, acabou conhecendo onde fica a crackolândia, onde ficava o antigo terminal rodoviário,a antiga estação da Sorocabana e o Dops, atual Estação Pinacoteca.
Partimos rumo a Itapeví, que fica ao final da linha 8 – Diamante da CPTM, queríamos fazer o trajeto clássico, partindo exatamente da Estação Julio Prestes, observar e tentar identificar o que pertenceu a EFS e o que era posterior a época, e assim fomos, observando a paisagem que se formava na janelinha. Assim que o trem passa sobre a marginal Pinheiros já percebemos a mudança de paisagem, antes caracterizada por muito prédios, agora casas e jardins, observa-se também o Pico do Jaraguá a direita até Barueri, após 1 hora chegamos a Itapeví, agora embarcamos na linha que liga Itapeví a Amador Bueno, este trecho é operado por um trem curioso, pra não dizer histórico, por ser, até aonde eu sei, o trem elétrico de subúrbio mais velho em operação, chegou no Brasil em 1958, fabricado pela Toshiba no Japão, logo, está com +/- 51 anos rodando, nos tempos em que foi importado, ele fazia o transporte de passageiros de Julio Prestes até Mairinque, era interessante ser transportado por este senhor, inclusive, todo pintado pelos Os Gêmeos, artistas paulistas conhecidos internacionalmente, então, além de ter uma propriedade histórica e cultural, o Toshibinha (como os antigos o chamavam) também é uma obra de arte.
Desembarcamos na Estação Amador Bueno, e já passavam das 9:30. Esta estação, assim como todas as paradas (não lembram uma estação, e sim paradas) de Itapeví até este ponto não possuem bilheterias, são no geral pontos de parada cobertos aonde a população usufruem este serviço a bordo deste trenzinho, já em vias percebíveis de aposentadoria, de forma muito precária, mas gratuita, com certeza presta um serviço importante para a população local, Itapeví é para este lugar, como o centro é para a periferia.
Iniciamos a caminhada sobre os trilhos, logo ao lado da antiga estação Fernão Dias – Amador Bueno, ainda madeira, de inicio ficamos meio apreensivos por andar sob os trilhos, mas percebemos que a linha do trem é uma via de tráfego muito utilizada por pessoas e comunidades que possuem a entrada de suas residências e propriedades junto a linha férrea (comunidades ferrobeirinhas?), isso em toda a extensão da ferrovia. Fomos seguindo a linha, e conversando, afinal, fazia tempos que eu e o Marcos não saíamos juntos, e eu havia impresso do site Estações Ferroviárias (http://www.estacoesferroviarias.com.br ) todas as informações sobre esta linha e suas estações ao longo da via, para melhor conhecer a região, a historia , e já ter uma idéia do que iríamos encontrar pela frente, então íamos discutindo estas observações e a própria historia da EFS.
Pela pesquisa feita no Google Earth, iríamos caminhar +/- 27 km de trilhos, e como tínhamos a kilometragem da localização de cada ponto aonde havia uma parada ou estação conseguida no site Estações Ferroviárias, e a kilometragem da via estava marcada nos antigos postes que levavam cabos elétricos, desta forma era fácil ver a cada 100 metros exatamente onde estávamos, quantos kilometros já havíamos feitos, quantos faltavam, a previsão do tempo de trajeto entre um ponto e outro, e o tempo estimado até o objetivo.
Eram 11 horas quando chegamos na Estação São João Novo, uma estação com seus restos ainda preservados porque funciona em seu antigo barracão um velório, até fiquei imaginando se não era um tipo de protesto contra a morte da ferrovia, mas não, era um velório de verdade, neste ponto já estávamos no município, ou, Estância Turística de São Roque, percebemos que estávamos no meio de uma vila, provavelmente resquício de quando a vila se formou ao redor da estação , como todas as vilas ao longo da linha, olhamos em volta pra ver se achávamos algum comércio aberto, e tudo que víamos estava fechado, parecia ser feriado, ou quem sabe hora da “siesta”? Caipira da cidade é acostumado com a vida corrida das metrópoles 24 horas, quando se depara com vários estabelecimentos fechados em dia normal na hora do almoço acha estranho, e era exatamente isso, fechados para o almoço, então fomos almoçar também, não tínhamos programado almoçar assim, já que nem sabíamos o que encontrar no caminho havíamos trazido conosco lanchinhos de trilha, mas já que apareceu uma santa padaria no nosso caminho, fomos pedir as bênçãos do padeiro, e realmente, o feijão com bacon, e o arroz com alho estavam muito saborosos, comi dois pratos, estávamos com fome e já fomos comendo, o filé de frango que veio depois foi a nossa sobremesa.
Fomos encontrando no caminho várias paradas e estações, umas abandonadas, outras nem restos deixaram, mas algumas resistiam ao tempo, graças a iniciativas de moradores, que reformaram algumas e transformaram em velório, associação de amigos, ou iniciativa do governo local, que transformou a Estação de São Roque em posto da Guarda Civil, e a Estação de Mairinque, que é um centro cultural e histórico, as outras, só soubemos que um dia foram alguma edificação da EFS graças ao estudo e mapeamento do site Estações Ferroviárias, porque estão irreconhecíveis.
Após passarmos por estações assombradas, restos de construções, cemitérios de vagões, linhas desativadas, um túnel imaginário, cruzarmos a Raposo Tavares por baixo e por cima, fugir de bode, cavalo, cadáver de bicho preguiça, mal encarados que cruzavam nosso caminho, locomotivas vindo de frente e tremendo o chão, locomotiva atrás de nós, festival de borboletas, trilhos destruídos, pedras e dormentes agressivos, e muito sol, enfim, chegamos a Mairinque, 8 horas depois do início, contando as paradas de almoço, água, pausa para um relaxante muscular, e descanso, percorremos os 27 Km caminhando a 3,3 Km/hora, eu considero uma média boa para uma caminhada sobre trilhos, já que embora seja plano, é uma caminhada especificamente difícil, não se anda normalmente, e pisamos sobre granitos que vão cansando e amassando a planta dos pés, mas chegamos muito bem, depois de conhecer a Estação de Mairinque, voltamos rapidamente, com um ônibus até São Roque, outro ônibus para Itapeví, e trem até a Julio Prestes novamente.
Além das fotos abaixo, temos um pequeno vídeo aqui.
Comentários (8)
09-01-2009 17:47
Eu nunca nem ouvi falar nesta cidade, mas as fotos eu curti.
Pois é, só hoje que estou me recuperando, foi bem cansativo, perdi alguns pedaços de sola da botina em alguns pontos do caminho, tive sorte por a botina não ter aberto o bico, como literalmente aconteceu com a do Boney. Posso dizer que foi uma pequena viagem no tempo, sinto em saber que a Estrada de Ferro Funilense que era ligada com a EFS passava na cidade onde nasci e fazia parte desta história, porém quase não deixou vestígios por lá, ironia pensar que a \"modernidade\" tirou muitas maquinas dos trilhos, eu prefiro acreditar que virar as costas para a malha ferroviária é dar alguns passos para trás, nem precisa ser especialista em logística para saber qual o melhor caminho para transporte seguro, barato e eficiente, conheço algumas pessoas que foram usuárias de transporte de trem e é fácil perceber como é nostálgico para quem viveu essa época, não acredito que quem anda de ônibus em grandes cidades outrora será invadido pela mesma nostalgia.
Eu fazia parte de uma turma grande, mais o menos 30 pessoas, que gostava de pegar trens nos finais de semana para fazer pic-nic ou visitar cidades no interior de sao paulo. Morávamos em Vila Hamburguesa (lapa) e foi assim que conheci Mairinque, São Roque, Mailasque, Campo Limpo, Jundiai, etc... Puxa, que saudade!!! Hoje em dia gostaria de encontrar pessoas que gostam de andar de trem para descobrir novos trechos.
os alunos procuram muitas matérias sobre acidade de Itapeví mas infelizmente quase não temos nada.Até mesmo professores procuram,por exemplo:de quem é o busto da estação?quem foi Amador Bueno E OUTROS MUITAS COISAS NOS FALTAM.GOSTARIA DE UM SITE QUE NOS ENFORMACE DE QUASE TUDO
Propus, tempos idos, uma ciclorrota São Paulo / Mairinque pela margem dos trilhos da antiga Fepasa, desde Varginha, passando por Evangelista de Souza, Cipo e Marsilac. O suporte legal era a lei do Plano Cicloviário do Estado (do então deputado Walter Feldman, nunca aplicada) que preve a implantação de ciclovias às margens de rodovias e ferrovias. Considere-se que a ferrovia, no trecho Evangelista / Mairinque, possui terreno disponível para a implantação de uma ciclovia (terreno onde se prevê uma segunda via, ainda hhoje não implantada e utilizada, incorretamente por carros, na forma de uma estrada de terra). Que tal uma ação junto a deputados amigos da bicicleta para viabilização de uma ciclorrota turistica - ou até, por que não? - a viabilização de uma estrutura para um evento anual do que chamei, na época, de um "tour ferroviário de São Paulo", evento a ser incluido no calendário anual das competições esportivas de São Paulo?
EAI BONEY. LEGAL KAMARADA. PO ACHEI MASSA O CAMINHO ATÉ MAYRINK. DAS PROXIMAS CHAMA A GENTE AI,POR EU SOU ADRENALINA,CURTO FAZER ESSES CAMINHOS,INCLUSIVE EU FAÇO OS CAMINHOS EXISTENTE NO BRASIL,POIS SOU PEREGRINO,JÁ FIZ TIPO(CAMINHO DA FÉ,CAMINHO DA LUZ,APARECIDA DO NORTE,FORA MINAS GERAIS E OUTROS CAMINHO EXISTENTE NO BRASIL),SE FOR FAZER ESSE AI MSM DE NOVO OU OUTRO ME AVISA ANTES,FICHIIIIII QUE DEMORO VAMO EMBORA,EU PRETENTO DAR A VOLTA NO MUNDO AINDA KKKKKK ABRAÇO WOLVERINE / / /
Eu moro próximo a estação varginha, acredito que a mesma citada como sugestão para ciclovia, gostaria de saber se se trata da mesma, pois a minha é aqui perto do grajau, antes de parelheiros. Queria dizer que sou a favor de ciclovias, estou eufórico com a aprovação da ciclovia na margem do pinheiros junto a linha da cptm.