O Manifesto abaixo foi escrito pelos participantes da Bicicletada São Paulo , e postei em meu site como uma forma de protesto pelo assassinato de uma colega, que eu não conhecia pessoalmente, mas recebia seus e-mails, acompanhava algumas atividades do grupo em que ela também havia participado, recebia fotos de atividades que envolviam bicicleta, e com ela no meio de alguma fotos.
Fiquei sabendo por um amigo, minutos depois de sua morte em plena Avenida Paulista, assassinada por um ônibus, pedalando, como rotineiramente pedalava.
Pra mim uma morte cheia de simbolismo, morta pelo sistema que ela estava combatendo, um sistema que não enxerga o ciclista como parte dele, morta na Avenida Paulista, palco de seus protestos como uma ativista do movimento em defesa da bicicleta como meio de locomoção individual, em defesa do respeito ao ciclista no transito, morta pela falta de educação dos motoristas, que ao invés de proteger a parte mais fraca do transito, ataca, espreme, humilha, acua, e literalmente, passa por cima, mata, assassina, tira de cena, e mantém a consciência tranqüila de quem elimina uma praga, um inseto urbano que atrapalha o caminho dos motorizados.
Eu lamento, eu sinto a perda, e eu rezei, refleti, e tive medo, porque poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser alguém mais próximo, sei que perdi uma futura amiga, conhecê-la melhor seria questão de tempo, porque utilizamos os mesmo espaços, na mesma cidade, fazemos parte de um mesmo movimento, um mesmo pensamento, e pedalamos na mesma avenida, então, sinto a perda sim, porque era uma amiga, ela lutava por mim, mesmo sem me conhecer, lutava por você, por cada um, somava forças com outros que fazem a mesma luta, lutava pelo próximo, lutava pelo futuro, pelo direito de ser transito, e eu sinto que ela definitivamente foi assassinada.
Assassinada porque temos leis que tratam sobre o assunto e os órgãos responsáveis não levam a sério, pra eles ciclistas não existem, ignoram, a bicicleta não entra na formação de condutores, no treinamento de motoristas, nos projetos viários, nas sinalizações de vias, nos estacionamentos, nem no respeito humano para humano, de quem tem em suas mão dezenas de cavalos de força.
Um ser humano foi assassinado pela ignorância, pela inobservância, pela arrogância, pela exclusão, pela mecanicalização do coração, pela cultura do automóvel, pela lei do mais forte, pela prepotência, pela desumanização em massa, pela maldade e insensibilidade com o próximo e desrespeito a vida.
Fui na chuvosa sexta feira (16/01) observar a homenagem dos amigos e colegas, eu estava fotografando, quando um cidadão me perguntou, “Quem era essa Márcia Prado...?”, respondi, “Era um ser humano...”, “Só isso????!!!! Tanta coisa....achei que era alguém importante...”, e se foi, achando exagero acender uma vela para alguém que não era importante pra ele..
Isso é uma mostra da banalização geral da violência, da perda de seres humanos, dos valores, do respeito, da humanização, só é alguém quem tem alguma importância social? Status? Poder? Acumulo de riquezas? Se não tem pode morrer? Pode matar?
Você mataria para chegar mais rápido?
Sua pressa vale uma vida?
Márcia Regina de Andrade Prado 1968 – 2009 Descanse em paz. Que suas rodas que aqui te deram asas, sejam suas asas aí para te darem rodas.
Manifesto dos Invisíveis
Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar? Para nós, cidadãos que utilizam a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?
Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, grandes exemplos de soluções criativas: Bogotá e Curitiba.
Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. Às leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.
A recente iniciativa do Metrô de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor.
Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.
A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa. “Só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.
Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.
Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana, do que acreditar que a solução dos nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.
A rua é de todos. A cidade também, e nós também somos trânsito.
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