Travessia do extremo sul de São Paulo, o bairro de Parelheiros, a Mambú, em Itanhaém
Voltamos a região da Barragem, desta vez para fazer a trilha do Índio, havíamos marcado com o Cacique Manoel da Aldeia Krukutu que iríamos eu, o Eduardo Felix, e o Renato Doidera, o objetivo seria conhecer melhor a região, conhecer a Trilha do Índio, conhecer a Aldeia Rio Branco, a Aldeia da Barragem, e a Aldeia Krukutu que o Renato não conhecia, tirar algumas fotografias, e fazer um levantamento para a criação de um possível roteiro turístico para amigos que possuem agencias de turismo de aventuras.
Marcamos com 1 mês de antecedência, pois seria um roteiro incomum, dormiríamos 3 dias em terras indígenas, e todas as aldeias deveriam saber e concordar antes de irmos, nosso guia seria o próprio Manoel, Cacique da aldeia Krukutu, que já havíamos conhecido quando fizemos a travessia de Parelheiros a Praia Grande, no carnaval de 2007, ele nos levaria com mais 3 filhos, inclusive com seu filho mais velho, o Karaí, de 15 anos, que havia ficado em uma aldeia em Florianópolis dos 2 aos 15 anos, não conhecia nada da região do seu pai, e iría junto conosco fazer a Trilha do Índio para a Aldeia Rio Branco pela primeira vez, eu suspeito que o Cacique Manoel queira preparar ele pra ser Cacique, por isso o trouxe de volta, o próprio Karaí disse, com um celular V3, ouvindo MP3, que não está muito a fim, pois “meu pai trabalha pra Cacique”, de fato, nestes 3 dias em companhia deles, imergidos em um pouco de sua cultura, suas terras, suas historias, seus conhecimentos, e suas atividades, vimos que realmente ser Cacique dá trabalho, para quem não sabe, Cacique é um cargo de liderança, é escolhido pelo povo para representar os desejos, direitos, e deveres da aldeia, o mandato pode ser curto ou longo, depende do quanto a administração é boa ou ruim, é preciso ter bom conhecimento de historia, legislação, línguas, bom senso, coragem, e muita disposição para este cargo, é uma luta diária, principalmente para proteger a cultura do seu povo.
Como eu escrevi acima, o roteiro que pedimos ao Cacique não é aceito normalmente, foram aberta muitas exceções para nós, mostrando claramente que estavam nos dando um grande voto de confiança, normalmente eles não permitem que pessoas de fora durmam na aldeia, as terras indígenas são protegidas por leis federais, só entra quem eles autorizarem, nem a policia pode entrar sem autorização, passar três dias com eles, em 3 aldeias, dormindo os três dias em propriedade indígena, foi um grande voto de confiança em nós assumido pelo cacique.
Tínhamos três dias para fazer isso, já estávamos com as mochilas prontas há uma semana, e psicologicamente preparados há seis meses, fisicamente... Iríamos realmente descobrir no caminho, o feriado de sete de setembro cairia na sexta-feira, para ganharmos tempo, combinamos com o Vice-Cacique Sebastião da Aldeia Krukutu, que iríamos à quinta-feira à noite, e fomos.
Quinta-Feira, 6 de Setembro.
Depois de pegar um trem de Comandante Sampaio até a Barra-Funda para me encontrar com o Renato, pegamos o Metrô e descemos na Sé, andamos até o Terminal Bandeira e pegamos o Terminal Santo Amaro, aonde nos encontraríamos com o Eduardo Felix, lá conseguimos pegar o Terminal Parelheiros, e deste, o ônibus Barragem até o final, depois de 5 conduções e 7 horas de viagem dentro do Município de São Paulo, chegamos até o ponto mais distante que o Bilhete Único pode nos levar, era mais de meia noite quando chegamos a escuridão do ponto final da Barragem, um bairro que mais parece o centro de alguma cidade típica do interior que não tenha mais de 5.000 habilitantes, mochilas nas costas, lanternas, e facão na cintura, fomos em direção a estrada que leva a aldeia Krukutu, logo na entrada da estrada, bem na antiga barragem da Represa Billings, avistamos o posto 24 horas da Guarda Ambiental, paramos, nos identificamos, conversamos um pouco e depois seguimos, é importante passar seu trajeto para a Guarda Ambiental, nunca se sabe o que pode acontecer, e eles estão lá, principalmente para impedir o acesso não autorizado de pessoas a serra do mar, prender caçadores, e efetuar resgates, sabendo quem somos nós, que estamos preparados para passar alguns dias na mata, e por onde iremos passar, é uma informação importante para eles em caso de resgate, são poucos pontos da serra em que há sinal de celular, mas ter em mãos o telefone da Base Ambiental gravado pode salvar vidas, o Corpo de Bombeiros mais próximo pode chegar em uma hora e meia, o GOE, mais tempo do que isso, então é melhor ter um bom relacionamento com a Guarda, e eles são bem preparados e bons conhecedores da região. Seguimos então pela estrada que nos leva a Aldeia Krukutu, são 5 km de caminhada, a noite estava quente, o céu limpo, as aves, mesmo naquela hora, estavam bem agitadas na mata, chegamos na aldeia as 01:30, o Vice-Cacique ainda nos esperava, conversamos um pouco e ele nos mostrou uma sala aonde dormiríamos, esticamos nossos sacos no chão e em 2 minutos já estávamos roncando.
Sexta - Feira, 7 de Setembro.
Acordamos as 6 da manhã, as 7 já estávamos prontos, o Cacique Manoel veio nos cumprimentar e repassar o planos, ele foi na frente de carro até a estação Evangelista de Souza nos esperar, enquanto seu filho, o Karaí, nos levou para conhecer a Aldeia da Barragem, nela, o Cacique Timóteo nos recebeu, conversamos sobre seus planos para o futuro da aldeia, ele tem idéias progressivas, está substituindo as cabanas de barro e taquara, por casas de alvenaria, quer montar um camping para receber turistas, um restaurante com comida típica indígena, cursos de montagem de praticas de arco de flecha, etc, ao contrário do Cacique Manoel, que é mais conservador, quer evitar que sua cultura seja substituída pela vida confortável e os vícios dos brancos (Jurua), luta para manter os hábitos da sua aldeia, conforme sua herança cultural, não trocaria sua cabana de barro por uma casa de alvenaria, não gostaria de ver índio comprando na feira o que poderia plantar em suas terras. Saímos da Aldeia da Barragem, percebemos que nas duas aldeias existe uma escolinha municipal do projeto CECI, Centro de Educação e Cultura Indígena, aonde as crianças aprendem sobre sua cultura, todas elas crescem falando Tupi-Guarani, depois aprendem o Português, já existem livros escritos pelos próprios índios, o que antes era um povo ágrafo (povo e língua que não têm registro escrito) agora começam a registrar sua cultura em livros, é o caso do Pajé Olívio Jekupé, que escreve sobre mitologia indígena, e já escreveu 8 livros, inclusive com publicação na Europa, eles usam Internet, Orkut, MSN, principalmente como ferramenta de comunicação e de divulgação dos seus projetos e lutas, um deles atualmente é o projeto Arandu Porã, que basicamente é um projeto ecológico para preservação e recuperação das nascentes da região, das margens da represa Billings, e preservação da Mata Atlântica, sua fauna e flora, inclusive possuem uma estufa para germinar plantas ameaçadas de extinção para depois plantar na mata, um projeto patrocinado pela Petrobrás e apoiado pela Universidade São Marcos. Saindo da Aldeia da Barragem. Iniciamos uma caminhada de 10 km em direção antiga Estação Evangelista de Souza, nome dado em homenagem ao Barão de Mauá, aonde o último trem de passageiros passou em 1997, mas o bar da estação funciona até hoje, agora propriedade da ALL (América Latina Logística), a estação virou uma vila ferroviária, usada exclusivamente para manutenção dos trens e da linha. No caminho fomos conversando com o Karaí, o sol estava forte, e eu já comecei a sentir a caminhada, fui mais devagar, mochila cheia, devia ter uns 17 kg, parava para descansar de vez em quando, no fim da estradinha, no entroncamento das linhas Jurubatuba com a linha Embu-Guaçu, encontramos o Cacique Manoel, já dando risada da gente, olhando nosso ritmo, nossas mochilas, parecia estar pensando “Esses brancos levem muitos pesos nas costas sem necessidade...”. O sol já batia bem no meio do céu quando entramos no 2° posto da Base Ambiental para nos identificarmos, normalmente não dos deixariam passar daquele ponto, mas como estávamos sendo guiados pelo Cacique, pudemos passar, o Felix ficou conversando com os Guardas, que mostraram a ele que transformaram uma antiga estação de energia em um centro de treinamento de cordas, com praticas de escalada de rapel, já combinaram de futuramente passar o dia com eles nessas atividades, chegamos e paramos na plataforma da antiga estação, agora sendo reformada pelos funcionários da ALL, pois é local de trabalho deles, virou um pátio de trem de carga, aguardando cada um sua vez de descer a serra, estávamos já com fome, então largamos as mochilas e decidimos fazer nosso almoço ali mesmo, na plataforma da estação, combinamos que o Cacique Manoel e seus 3 filhos iriam continuar pela linha do trem, nos esperariam no túnel 24, pois dormiríamos perto dali, depois de uma bela macarronada, e de lavar as “louças” em uma biquinha de água atrás da estação, resolvemos descansar, eu estava precisando, pois sabia que dali pra frente teríamos de andar sob os trilhos, e pra mim isso é muito desgastante, precisava estar bem descansado para poder encarar aquilo, que eu tinha certeza, seria o trecho mais cansativo, os maquinistas, e os funcionários do pátio de manutenção, até os moradores da vila ferroviária olhavam pra gente estranhando, não é muito comum um mochileiro passar por lá, conversar com eles, fotografar, ficamos conversando com o engenheiro de comunicação da estação, não me lembro o nome dele, nos contou quase toda a historia atual das ferrovias no Brasil, e nos convidou a qualquer dia, voltar lá para descer de trem até o litoral, é claro que vamos voltar. Seguimos caminhando, agora sobre trilhos, em direção ao túnel 24, novamente comecei a me sentir cansado e diminui meu ritmo, a previsão era que chegássemos no túnel 24 até as 16 horas, dormiríamos embaixo da ponte, caso já houvesse alguém acampado e não tivesse lugar pra gente, dormiríamos acampados próximo ao rancho que o Cacique Manoel iria dormir com seus filhos, chegamos no túnel 24 as 16:30, e já haviam pessoas acampadas, então nosso plano de dormir embaixo da ponte havia furado, ficamos preocupados porque o cacique não estava ali nos esperando, então fomos procurá-lo, perguntamos aos campistas se alguém havia visto 4 índios, um adulto e 3 crianças, disseram que haviam visto algo parecido entrando em uma trilha depois do túnel 24, então fomos pra lá, imaginando que seria a entrada para o tal rancho, eu não agüentava mais ficar em pé, o Felix foi na frente procurar o Cacique, encontraram eles voltando para nos procurar, o Manoel vendo meu estado já ficou preocupado, fez uma gracinha, “vou fazer uma pajelança com mandioca braba pra você melhorar”, achou realmente que eu não ia conseguir, e eu estava muito mal mesmo, mal consegui me mover, havíamos andado 30 km, uns 10 km sob os trilhos e pedras, tudo que eu queria era cair no chão e ficar, voltamos para entrada do túnel 25, pegamos uma trilha em direção ao rancho, ali já era terra indígena pertencente a Aldeia Rio Branco, e o rancho, era uma cabana pertencente a um casal de Índios, parentes do Cacique Manoel, ele nos mostrou uma área a 200 Mts do rancho que poderíamos armar as barracas, terminamos de montar, e já estava bem escuro, tudo que eu queria era dormir, mas voltamos ao rancho, pois a bica de água mais próxima era lá, fizemos nossa janta, picadinho com arroz a grega e lingüiça paio, eram 20 horas e já estávamos dormindo, pelos planos, o dia seguinte seria leve, apenas 10 km de descida por trilhas na serra, então poderíamos dormir até mais tarde para nos recuperar, eu precisava, estava muito quente dentro das barracas, eu estava estranhando principalmente porque estava de barraca nova, uma bivak da Trilhas e Rumos, para 1 pessoa, não tem janelas e eu estava sufocado, todos dormimos nús por causa do calor, depois descobrimos que aquela área que estávamos acampados era um grande formigueiro, além de ser área aonde é comum verem antas passando, eu só queria saber de dormir e me recuperar, não só o Manoel, mas o Renato e o Felix também estavam preocupados comigo, se eu agüentaria até o fim sem ser carregado.
Sábado, 8 de Setembro.
Quando acordamos já passavam das 8 da manha, fiz meu alongamento para sentir meu corpo, eu estava inteiro, totalmente recuperado, eu chegaria na Aldeia Rio Branco 10 km abaixo, sem sentir, as 9 horas o Cacique também já pronto, junto com seus 3 filhos já nos esperava, começamos a trilha descendo a serra as 9:30, o Cacique explicou que o caminho que faríamos era diferente do conhecido pela maioria das pessoas que fazem essa trilha, normalmente quem se aventura pela Trilha do Índio, inicia a caminhada por um caminho depois do Túnel 24, de aproximadamente 20 km, passando por mais terrenos acidentados, com facilidade de se perder, pois quem não conhece, pode seguir trilhas abertas por animais, achando que é uma trilha comum, e que não vão dar em lugar nenhum, e isso é muito comum, e a trilha que o cacique estava nos levando, é 10 km mais curta, mais suave de se caminhar, ele ia na frente abrindo a trilha que já estava fechada, atento a animais e a armadilhas de caçadores, segundo os Índios e a Guarda Ambiental, é muito difícil caçadores fazerem armadilhas próximo a trilhas, eles fazem em caminhos de animais pela mata, mas se alguém se perder na mata e pegar um destes caminhos e fatalmente pode encontrar uma armadilha, desde as mais simples, uma tora de madeira preparada para cair em um cercado de bambu feito especialmente para prender um animal pequeno, quando ele entra mordendo alguma isca, ele destrava a tora de madeira se enroscando em um fio de nylon, que cai sobre ele matando, ou no mínimo prendendo o bichinho até o caçador chegar, ou até as mais sofisticadas, colocadas no alto de arvores, com um mecanismo de disparo de balas de calibre 22, voltadas para o solo, que são acionadas quando um animal passa, também se enroscando em fios de nylon, ativando o disparo que recebe direto nas costas, não é raro casos de lesões causados por armadilhas de caçadores a pessoas que não percebem e acabam se acidentando, os índios também fazem armadilhas, mas a terra é deles, e caçam para consumo próprio, e fazem em locais que todos conhecem a localização, desarmar armadilha e expulsar caçadores e uma das tarefas diárias tanto dos índios, como da Guarda Ambiental. Com o Manoel na frente, abrindo o caminho, observando a trilha, fomos atrás sem maiores preocupações, observávamos a mata primária, velhas árvores, e o Manoel foi dando explicações sobre plantas que iríamos encontrando na trilha, folhas para fazer teto de cabanas, cipós e árvores para fazer cordas com as fibras, canto de pássaros, histórias dos Portugueses, dos Bandeirantes, dos índios, dos Espanhóis, coisas que são contadas de boca em boca ao longo dos anos, que não estão escritas nos livros escolares, e assim fomos descendo a serra e aprendendo historia indígena. Chegamos ao fim da serra, agora o terreno estava plano, logo chegamos ao final do Rio Capivari (Capivar-y, Capim = Mato, Vara = Bicho, Bicho-Capim, devido a sua pelagem parecer mesmo um tipo de capim, ficou como Rio das Capivaras, que hoje muito raramente se encontra alguma), que termina no Rio Branco, (conhecido em Tupi-Guarani como Y’ynh Porã = Rio de água limpa), atravessamos o Rio Branco no ponto em que o Rio Capivari desemboca nele, é um rio largo, mesmo em época de seca a água batia no joelho, atravessamos com cuidado e com ajuda de um cajado, mesmo a água estando baixa, ainda é um rio forte, e com muitas pedras soltas em seu fundo, voltamos para a trilha do outro lado do rio, o Cacique Manoel nos levou para uma prainha e tomamos nosso primeiro banho depois de 2 dias, a água estava uma delicia, era 14 horas e faltava só mais uma hora de caminhada para chegar a Aldeia Rio Branco, o Felix e o Renato nadaram felizes no rio, em sua parte mais funda devia ter uns 4 metros, os 3 filhos do cacique também tomaram banho conosco, enquanto o Cacique foi verificar um acampamento ilegal que ele descobriu perto do local que estávamos, havia umas 10 pessoas acampadas, pelas as aparências do acampamento, já faziam dias, ele foi verificar quem eram essas pessoas, dando um prazo de 2 dias para saírem de lá, pois eram terras indígenas, ou seriam expulsos, deixou informado que quando quisessem usufruir o local para acampar, deveriam pedir autorização ao cacique da Aldeia Rio Branco, que é o responsável por aquelas terras, e seguir procedimentos de mínimo impacto e preservação do meio-ambiente. Depois do recondicionante banho, voltamos a trilha, agora faltava pouco, em uma hora de caminhada chegamos a periferia da Aldeia Rio Branco, aonde fomos recebidos pelo Vice-Cacique, que nos mostrou uma área perto do rio que poderíamos armar nossas barracas, e nos cedeu uma enchada para carpir o terreno onde nos ficaríamos, carpi tanto que quebrei a enchada, eram 16 horas ainda, deu tempo para arrumarmos tudo, preparar um belo almoço, dar uma voltinha pela aldeia, e uma hora depois, preparar um belo jantar, acho que nunca comemos tanto em trilhas, estes dias estávamos fazendo refeições que nem em casa eu como, estávamos fazendo rigorosamente três boas refeições diárias, nosso cardápio para estes 3 dias foram leite, pão e sucrilhos pela manhã, arroz a grega, ou com curry, ou com vegetais acompanhado de carne ao vinho, moída, picadinho, ou fatiada no almoço, macarrão com manjericão, e carne moída a noite, sopas vono antes de dormir, tomando muito líquido, e abusando de doces, biscoitos, e salgadinhos nos intervalos, a alimentação planejada foi perfeita. Logo escureceu, e a beira do rio, olhando a outra margem, vimos um festival de iluminação feito por centenas de vaga-lumes, ficamos observando aquele show, me lembrando quando eu era criança que caçava vaga-lume para colocar em potes de vidro e iluminar meu quarto. Dormi ouvindo barulhos na mata, acordando de tempo em tempos, jogando a luz da lanterna para o mato pra ver se eu via alguma coisa, mas deviam ser bichos pequenos curiosos com nossas barracas em suas terras.
Domingo, 9 de Setembro.
Acordamos com os filhos do Cacique Manoel nos chamando, a missão deles de nos deixar na Aldeia Rio Branco havia terminado, e eles voltariam para Aldeia Krukutu, pretendiam chegar lá até o fim do dia, o caminho que fizemos em 3 dias um índio leva 8 horas pra fazer, antes de irem, eles ainda nos deixariam no núcleo da Aldeia Rio Branco, e nos apresentaria ao Cacique Daniel, 9 horas da manhã já estávamos com os pés dentro do rio Branco novamente atravessando, no meio do rio eu descobri o porquê deste nome, um rio que parece ser de cristal, transparente, limpo, fiquei olhando com grande admiração aquela camada de água que se via os fundos como se não houvesse água por cima, passou pela minha cabeça que um dia o Tietê foi assim, me deu um certo aperto pensando nisso, fomos em frente, chegamos ao núcleo da aldeia, o Cacique Manoel e seus filhos voltaram, nos despedimos e agradecemos pelos 3 dias com eles, prometemos que voltaríamos, dali em diante seguiríamos sozinhos uma estrada no meio de um bananal que finalizaria no bairro Mambú, já em Itanhaém, o Renato fez suas ultimas fotos, o Felix terminou suas anotações, e caímos na estrada, muito felizes por tudo que passamos e conhecemos, caminhamos mais 15 km até o Bar do Zé Pretinho, um bar típico de roça, praticamente um armazém, aonde brindamos com uma tão sonhada e desejada garrafa de Coca-Cola, aquelas de vidro, parecia um comercial, em seguida partimos para Tubaina, perguntamos para o Zé Pretinho que horas passaria o próximo ônibus para Itanhaém, a resposta foi “uma hora passa”, então ficamos da 1:15 até as 17:30 esperando o tal ônibus, já estávamos participando da vida local, conversando com os roceiros que paravam com suas barra forte para tomar um “me” no Zé Pretinho, um desse ilustres roceiros que conhecemos foi o Sr Daniel, um filho de imigrantes espanhóis que chegaram aquele local em 1920, um pouco depois dos primeiros imigrantes japoneses, que depois que tentaram plantar arroz sem sucesso na região, subiram para Parelheiros e venderam as terras a estes espanhóis, que iniciaram a plantação de banana, inclusive a banana é cultivada até hoje, ele contou que os rios naquela época eram perfeitamente navegáveis, ainda não havia estradas, e lembra que seu pai levava 4 dias empurrando uma “chata” (embarcação parecida com a balsa) rio acima com vara de bambu desde o Rio Itanhaem, depois descia carregado de caixas de banana em apenas um dia, contou cm detalhes sobre acontecimentos na região durante a segunda guerra, a revolução de 32, e de 64, foi ótimo ouvir sua histórias, depois que o ônibus chegou, sentamos nos fundos e nos trocamos lá mesmo, colocando roupas limpas, descemos na praia, molhamos os pés na água do mar, e fomos logo comer outro sonho de consumo, arroz, feijão, bife e batata frita, comemoramos mais uma vez, 55 km de caminhada, e 75 horas depois, voltamos para São Paulo, já planejando nossa volta para pegar aquela prometida carona de trem e descer a serra com a perspectiva dos velhos tempos em que se viajava pelo Brasil de trem.
Renato e Felix, obrigado por terem encarado essa aventura, fazer trilhas com vocês é fantástico, dormem e acordam de bom humor, mesmo no maior perrengue não deixam de valorizar cada desafio.
Comentários (7)
30-07-2008 14:30
parabéns pela coragem,e pelo espirito aventureiro e ao mesmo tempo preservador da natureza e novamente obrigado pelo reconhecimento do trabalho da gcm.
Esta viajem foi feita quase no mesmo dia por nós quando voces estavam chegando no tunel 24 nós estavamos esperando o onibus no bar do Zé Pretinho, após 12 horas de caminhada acelerada pela estrada do Bananal até o Mambu
gostaria muito de fazer esta caminhada. mais nao sei como marcar isto com este cacique.se puder me dar algumas dicas meu email
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