Travessia de bicicleta pela estrada da Petrobrás (ou Caminho do Sol)
De Mogi das Cruzes as Caraguátatuba de bicicleta, passando pela famosa estrada da Petrobrás
Eu não conhecia estrada da Petrobrás até a uns 6 meses atrás, quando o Lúcio de Araraquara, me chamou para ajudar a organizar um pedal em Salesópolis.
Conforme fomos organizando este pedal, fui pesquisando e conhecendo mais sobre a estrada, quando eu vi a altimetria pela primeira vez eu senti que eu ainda não estava preparado e resolvi não ir, a galera foi lá, mais de 40 ciclistas compareceram no pedal, e eu fiquei depois só babando nas fotos e nos relatos, mas pensando,”um dia eu vou”.
A Estrada da Petrobrás é uma via que liga Salesópolis a Caraguatatuba, é chamada assim porque serve de manutenção para o oleoduto da Petrobrás que cruza a estrada o tempo todo, e há também no meio da estrada uma base de bombeamento destes oleodutos, ela corta a serra passando pelo Parque Estadual da Serra do Mar, encontramos muitos rios, bicas e cachoeiras no caminho, além do visual da serra, a estrada é muito utilizada por motociclistas, jipeiros, e funcionários da Petrobrás, mas nada que atrapalhe um ciclista, de Salé a Caraguá o percurso é de aproximadamente 75 Km, com muitas subidas no início, depois as subidas vão diminuindo de tamanho até a descida da serra, com declives alucinantes, até chegar na Rio Santos.
O feriado do dia das crianças estavam chegando, e comecei a pensar seriamente em fazer este roteiro, normalmente os mais resistentes fazem em um dia, os mais atletas fazem em 4 ou 5 horas, eu pretendia fazer em 3 dias, e este feriado estava perfeito, 3 dias, época de sol e clima seco, comecei a planejar, conversei com o Marquinhos sobre minha intenção, ele topou em ir comigo, e também levaria o Pedrão e o Dudu.
Tudo pronto, então nos encontramos na sexta de feriado na estação da Luz, eram 8 horas da manhã quando embarcamos com as bikes e mochilas para Guaianazes, de lá embarcamos em outro trem para descermos na Estação Estudantes, já em Mogi das Cruzes, de onde iniciamos as 10 horas nossa pedalada, o sol estava bem forte, fomos em ritmo de passeio (até porque eu não conheço outro ritmo, rs) por 45 km até Salesópolis, um pouco antes da cidade meu pneu traseiro furou, era a primeira vez em 1200 km de pedal que eu furo o pneu, fiquei meio preocupado, eu estava com 2 câmaras, será que daria???, continuamos, as 14 horas e alguns minutos já estávamos cruzando o portal de Salesópolis, loucos de fome, água acabando, sol nos derretendo, e fomos procurar algum lugar para almoçar, lembramos de 3 coisas, 15 horas, feriado, e cidade do interior, será que vamos encontrar comida????, simmm, depois de vermos muitas portas fechadas encontramos uma pousada + restaurante + bar + casa de show+ etc, um pouco de tudo, ainda aberta, e com comida boa, como se estivesse nos esperando, a primeira coisa que bebemos foi um gole de cerveja geladíssima, é impressionante a sensação de frescor na primeira golada, comemos muito bem, botando tudo que era carboidrato no estômago, tomando cuidado para não ingerir nada diferente que pudesse me sar um pirirí no caminho. Terminamos a refeição, e já fomos em busca da estrada, quando chegamos no inicio já tínhamos pedalado 50 km sob o sol, eram 17 horas, e ainda pretendíamos pedalar o trecho mais difícil que eram os 25 km de subida forte até o topo da serra, para só depois acampar, eu internamente comecei a desistir, já estava pensando na rodoviária que havia visto a 3 km atrás com um sorriso na alma, pra mim aquilo já estava bom, pedi para o Marquinhos, Pedrão e Dudu irem no seus ritmos, não me esperarem, nos encontraríamos na Intermediaria, segundo nossos cálculos , umas 23 horas para acamparmos, quando perdi os meninos de vista, fui empurrando a bike, os 25 km de subida sofredora que eu teria pela frente estava me fazendo sofrer por antecipação, mas ainda estava no 1º dia, estava bem preparado em minha mochila para 3 dias na estrada, então resolvi seguir, eu poderia desistir neste ponto, mas quando eu voltaria???.Resolvi seguir no meu ritmo, lerdo e sempre, e praticar o ciclo-trekking, 25 km de subida de dar pânico, emburrando a bike, com algumas decidinhas, logo escureceu, fui me sentindo melhor e mais confiante, aquela brisa refrescante estava me fazendo bem, as estrelas apareceram e eu continuei, fiquei mais feliz com minha disposição, a noite eu consigo mais autonomia no pedal, e no meu ritmo, eu conseguiria chegar sem maiores lesões. Logo me senti parte desta estrada, comecei a conhecer seu solo, suas curvas, e a paisagem que a cerca, tanto em trilhas como em pedaladas, havendo luz suficiente das estrelas ou da lua, gosto de andar sem ajuda de lanternas, e como a bike é silenciosa, não chamo a atenção do animais, pessoas, e principalmente dos cães nos sítios e casas que eu passava em frente, eu comecei a pensar nos meninos, deviam estar pelo menos a 2 horas na minha frente, eu deveria chegar no ponto de encontro e eles já estariam dormindo....olhei pra trás vi umas luzes, achei de inicio que eram motos, mas no silencio da estrada eu ouvia os barulhos de motores pelo menos 5 minutos antes de aparecerem, como eu estava pedalando sem as lanternas, acendi as luzes para me verem na frente deles, devia ser então algum morador voltando pra casa, mas não era, para minha surpresa era os meninos, e atrás de mim, eu havia passado por eles em algum ponto quando eles pararam, como eu estava pedalando com as lanternas desligadas eles não me viram, fiquei feliz por estarmos juntos de novo, e eles por eu estar bem, só não entendi como eu havia os alcançado, já que eu deveria estar não menos de 1 hora atrás deles. Fomos juntos encarando a subida da serra, pedalava um pouquinho, empurrava mais ainda, parava um pouquinho, e assim estávamos indo, conquistando km a km a parte mais difícil, eram 22 horas quando chegamos em fim no topo da serra, junto a uma torre, a 1150 metro de altitude, não pudemos ver nada a nossa volta, mas sabíamos que se estivéssemos a luz do dia veríamos toda a serra, a partir deste ponto tudo seria mais fácil, ainda teríamos algumas subidas fortes pelo caminho, as não como a que acabamos de conquistar, teríamos mais descidas, longas descidas, então começamos a descer, estávamos procurando um local chamado de intermediaria para acampar, foi a dica dada pelo pessoal do restaurante que almoçamos, deveria estar a 5 km depois da torre, mas já havíamos descido 10 km e nada dessa intermediaria, ou nos já havíamos passado ou havíamos calculado errado, já eram quase 23 horas, achamos um local plano, com grama baixa, a beira da estrada e em uma clareira, bem em cima do oleoduto, era um local ideal para acamparmos, e fizemos isso, não agüentava dar mais um passo, muito menos mais um giro, acampamos e dormimos, até aquele momento fizemos 85 km em 13 horas sentados no selin, meu bumbum já estava pedindo caladryl, e minha coxas uma massagem bem alongada, mas o pior já havia passado, teríamos muita paisagem e descontração no dia seguinte.
Acordamos felizes, recuperados, prontos para terminar nossa aventura, faltavam apenas 40 km até a Rio Santos, e teríamos poucas subidas e muitas descidas, rios e cachoeiras, iniciamos nosso pedal as 8 da manha, e outro pneu furado, desta vez a Rúbia, a bike do Marquinhos, câmara trocada, voltamos para a estrada, estávamos em meio a montanhas, era uma delicia ter esse visual, o sol prometia não ser tão intenso, logo falei para os pessoal não me esperar, eu iria no meu ritmo, lerdo e sempre, queria passear, e chegar bem no fim, o ritmo e resistência deles era muito maiores do que o meu, então fui pedalando e observando a paisagem, parando em todas as bicas, rios, e descansando nas sombras, não resisti quando vi um rio que formava uma piscina natural nas rochas, me deitei sobre as rochas, com água morna passando embaixo de mim, massageando meus músculos, aquilo foi uma hidro que fez recompor todo meu espírito e corpo, estava muito feliz , pegava todas as descidas com média de 40/50 km/h, que delícia, rapidamente cheguei no fim da serra, e continuei, agora a paisagem era mais urbana, com mais casas, mais carros, mais pessoas, tudo era plano, mesmo na areia era uma delicia pedalar, com sentimento de realização, eu não imaginava no inicio da estrada que conseguiria, quase desisti, mas agora eu já estava na Rio Santos, venci aquele paredão, eram 14 horas e faltava apenas 10 km para rodoviária e voltar para SP.Na ciclovia em direção a Caraguatatuba, eu fui passando por varias placas de pousadas, aquilo foi começando a mexer comigo, quanto mais placas eu via, mais cansado eu ficava, comecei a ficar mole, logo avistei uma placa na rua “PF por 3 reais”, aquilo caiu do céu, entrei no boteco salivando, duas garrafas de gatorade depois, pedi uma Coka de 1 litro e um PF, me senti muito satisfeito, mas na frente do boteco havia outra placa, que eu lia em cada garfada, “ Pousada Morada dos Sonhos, Hidro, TV, Restaurante...”, chega, era tortura demais, cheguei na rodoviária as 15 horas, liguei para a Cleide, esposa do marquinhos para saber dele, ouvi que ele havia ligado para ela as 13 horas, imaginei que neste horário eles já estavam então na estrada voltando para São Paulo, como não havíamos combinado um ponto de encontro, e com medo do trânsito para voltar, eles já haviam ido embora, fiquei com medo de embarcar e chegar em SP depois as 20 horas, depois deste horário eu não poderia embarcar com a bike no metrô e trem, e não queria pedalar do Tietê a Osasco neste estado, as placas venceram, fui procurar uma pousada, descansei e me recuperei, voltei no dia seguinte, foi quando consegui falar com o Marquinhos, que disse que chegaram na rodoviária de Caraguá as 16 horas, ai eu não entendi mais nada, como eu havia passado por eles de novo??????
A Estrada da Petrobrás é linda, vale a pena, é compensador e realizador, mas pra mim, é uma dessas aventuras que fazemos apenas uma vez na vida, como disse o Lúcio, eu volto um dia, talvez na próxima vida, foram 140 km e 20 horas com as mãos no guidom, uffa, cansei, mas gostei muito.
Valeu Dudu, Pedrão e Marquinhos.
Comentários (6)
23-10-2008 14:11
VALEU PESSOAL, EU TAMBEM JA FIZ ESTA ESTRADA E TENHO SAUDADES, PAREI DE PEDALAR MAS ESTOU VOLTANDO, MORO EM SABAUNA E SE ESTIVEREM POR AQUELAS BANDAS E PRECISAR DE AJUDA PODE CONTAR COM O AMIGO LUIZINHO, BELA REPORTAGEM ATE MAIS
Galera...fiz o caminho dia 18/07.Moro em caragua.Desci em salesopolis e mandei pedal.Gostaria de ir com mais gente.Se um acaso forem novamente me enviam um e-mai falando da data e se me convidarem estarei junto.
Galera...fiz o caminho dia 18/07.Moro em caragua.Desci em salesopolis e mandei pedal.Gostaria de ir com mais gente.Se um acaso forem novamente me enviam um e-mai falando da data e se me convidarem estarei junto.