Travessia Barragem - Paraitinga PDF Imprimir E-mail

Travessia do Bairro da Barragem no extremo sul de São Paulo a Paraitinga, na Praia Grande

 Há muito tempo eu ouvia dizer que no extremo sul de São Paulo tinha uma cachoeira, mas não achava qualquer informação, o tempo foi passando, chegou a internet, o Google, e eu ainda não achava nada, depois chegou o Orkut, um dia resolvi voltar a pesquisar, acabei conhecendo o Alex, do site www.trilhax.com , que me explicou sobre toda a região de Parelheiros e sobre a A.P.A Capivari Monos, ele me forneceu muito gentilmente todas as informações que eu precisava, mas nunca conseguimos nos encontrar para irmos juntos, resolvi ir no Carnaval, queria conhecer o que eu pudesse em 4 dias, no início até pensei em ir sozinho mesmo, mas por recomendações do Alex, que me orientou sobre os riscos da região, procurei um parceiro para essa aventura, conversando com o Rex, ele me recomendou o Felix, eu ainda não tinha uma amizade próxima com o Eduardo Felix, já havíamos nos encontrado em uma trilha na Pedra Grande umas duas vezes, mas pelo pouco que conversamos eu já confiava nele, eu liguei pra ele a menos de 24 horas da saída, ele nem esperou eu explicar do que se tratava e já foi dizendo “Eu topo, pode contar comigo, minha mochila já está pronta, são quantos dias de previsão no mato?”, respondi, “não tenho essa precisão, mas acredito em 3 ou 4 dias”, tudo acertado.

1ºDia.
  Nos encontramos no Terminal Santo Amaro no domingo as 8:00 rumo ao Terminal Parelheiros, lá conhecemos uma figura, o “seu’ Pereira, que nos viu e percebeu que não éramos da região e foi conversar conosco, explicando muitas coisas sobre a região e dando conselhos sobre os perigos. Pegamos mais um ônibus rumo a Barragem, um lugar com ares de uma vila de um interior distante, aonde o ponto central da vila é uma quitanda de uma japonesa.
  Na Barragem já fomos em direção da aldeia guarani Krucutu, no caminho tinha um posto da GCM, (esqueçam o que vcs conhecem da CGM, Guarda Civil Metropolitana, lá eles são o GOE, são muito bem treinados, patrulham a região diariamente, fazem busca e salvamento, prendem caçadores, desmontam armadilhas na mata, resgatam animais, protegem os cidadãos, etc, )aonde paramos para conversar com os guardas, nos identificar e explicar porque estávamos ali, pegamos mais algumas orientações e seguimos pra aldeia caminhando 5 km pela antiga estrada do Cipó, encontramos no caminho uma vila de japoneses, descendentes dos imigrantes que foram pra lá há muito tempo atrás, nem falam português, seguimos em frente, pegamos a direção errada e caímos numa vila de seminaristas, onde os futuros padres nos indicaram o caminho da aldeia. Conseguimos chegar na aldeia Krucutu, fomos recebidos pelo Cacique Manoel, que nos mostrou a aldeia, falou sobre sua historia, suas guerras com o governo e com a funai, com grileiros, e com exploradores que ainda continuam invadindo sua cultura, falou sobre seus problemas internos com o alcoolismo, e sobre a difícil missão de preservar seus costumes, depois apresentou o pajé Olívio, que contou mais sobre seu povo, passamos a tarde inteira, infelizmente o cacique não nos deixou pousar na tribo, mas esta experiência com esta pequena tribo que luta para manter-se viva apesar de todas as adversidades me mostrou como eles são inteligentes, quase todos eram bilíngües, fluentes no guarani e no português, o pajé já tem 2 livros publicados sobre mitologia indígena, promovem campeonatos de futebol entre tribos do Brasil todo em seu campo nos fundos da aldeia, viajam o mundo, lutam e se organizam para defender seus direitos, e ao mesmo tempo são totalmente desprendidos das coisas materiais, rezam, fazem rituais religiosos todos os dias, é uma cultura muito diferente, não acumulam riquezas, não precisam disso, tiram da natureza o que precisam, e ela sempre vai estar lá pra isso, as lutas indígenas são para preservação do meio ambiente, se preocupam com o que se tornará o Brasil e seu povo se terras importantes não forem preservadas.
  Saímos da aldeia e voltamos pra vila, almoçamos na quitanda da japonesa, conhecemos algumas pessoas do região e fomos caminhando até a Estação Evangelista de Sousa, mais 9 km de caminhada, já tínhamos andado 10 km antes para ir e voltar da tribo. A Estação Evangelista funcionou para passageiros até 1997, era propriedade da Estrada de Ferro Sorocabana, ligando Santos a Mairinque, e a Julio Prestes pelo ramal Jurubatuba, hoje é uma vila de operários que passam os dias fazendo manutenção na linha,agora pertencente a ALL, antes Ferroban, lá os trens param para trocar suas pastilhas de freio antes de descer a serra, é nessa hora que viajantes clandestinos sobem no trem e pegam carona para o litoral, indo no meio da soja, calcário, milho, etc.
Conhecemos a antiga estação, e seguimos pela linha do trem , nosso destino agora era procurar a cachoeira do Jamil e sua pequena praia, procuramos por toda a região, mas não achamos, cansados, esticamos as barracas no alto de um morro e dormimos, foram 25 km de caminhada.

2º Dia
  Acordamos nas terras do Jamil e voltamos para a linha do trem, agora nosso objetivo era procurar a cachoeira da Usina, andamos 6 km até encontrar o túnel 27, 100 metros antes do túnel se inicia a trilha de 2 km que leva a cachoeira da usina, aquilo, como tudo que encontramos na região é um elo perdido com o passado ferroviário do Brasil, esta cachoeira tem um volume de água muito grande, cai por 70 metros, antes dela há uma barragem com restos de uma comporta, era utilizada para gerar energia para a linha de telégrafo, a vila dos operários, e a ferrovia, aquilo me fascinou, tamanha preciosidade, força, volume, beleza da cachoeira e seus restos do que foi um complexo de geração de energia no meio da serra do mar.
  Nos banhamos nesta água abençoada, fizemos nosso almoço, e fomos procurar um local para acampar, encontramos um ótimo local com a visão para a cachoeira logo abaixo de nós, explorando mais o local descobrimos uma piscina natural incrustada nas rochas, a beira de um abismo de 100 metros de altura, que delicia de piscina, nadávamos com a visão da serra abaixo de nós, aquilo não parecia real, dormimos ao som das águas.

3º Dia
  Voltamos para a linha do trem, seguindo pela via, começamos no túnel 27, nosso objetivo era chegar no túnel 16, local com outra cachoeira grande, no caminho íamos passando por túneis de 1933 e pontes de 50,60,70,100 metros de altura, o Felix delirava, louco pra fazer um base-jump ou descer de rapel. Encontramos o túnel 16, nos banhamos na cachoeira e nas banheiras naturais de hidromassagem formadas nas rochas, almoçamos e continuamos a descida, neste ponto já tínhamos caminhado uns 15 km, decidimos continuar a caminhada até o túnel 1, ou tentar, esta parte foi massacrante, caminhar horas na linha do trem, pisando em pedras, aquilo foi me cansando , foi anoitecendo, parávamos para descansar, decidimos continuar para ganhar um dia a mais, os trens passavam por nos descendo para o litoral, mas quando nos viam, aceleravam para não subirmos nos vagões, o objetivo de descer a serra sob um trem de carga não conseguimos cumprir, fomos caminhando, 40 km e 18 horas depois de caminhada sobre pedras, chegamos a Estação de Paraitinga, na Praia Grande, eram 3 horas da manhã, completamente exaustos, mas posso dizer que valeu, conhecemos um pedaço da APA Capivari Monos, uma tribo guarani, passamos por varias cachoeiras e rios da região, conhecemos parte da história esquecida da Estrada de Ferro Sorocabana, como seus túneis e pontes, vilas e estações abandonadas, e descemos toda a a serra do mar a pé, de Parelheiros a Praia Grande num total de +/- 80 km de caminhada em meio de muita história perdida.

Valeu Felix, eu não teria conseguido sem vc.

 




Seja o primeiro a comentar este artigo.

Escrever comentário
  • Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
  • Ataques pessoais serão deletados.
  • Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
Nome:
E-mail
Comentário:

Código:* Code

Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6
AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com
All right reserved

 
< Anterior   Próximo >

Assine






Copyright © 2005 - 2012 Boney - Fotografia - Trekking - Ciclismo. Designed by Shape5.com